
UMA NOVIDADE INTERESSANTE NA DEFESA DO DOMINGO
Temos
analisado em várias oportunidades alguns argumentos de indivíduos que
buscam justificar sua negligência ou desprezo pelo mandamento do sábado e
após enumerar os vários tópicos de objeções à vigência do 4o.
mandamento para o nosso tempo (aqueles velhos e surrados argumentos da
“lei abolida”, “nova lei de amor a Deus e ao próximo”, “qualquer dia
serve”, “sábado cerimonial”, etc.) notamos ao final um detalhe
interessante. Como dizíamos num desses estudos, sob o título “O
Argumento Que Faltou”:
* Curiosamente, a posição oficial das
diferentes igrejas e seus grandes próceres e instrutores, de que o
domingo foi adotado pela Igreja Cristã desde o mais remoto período de
sua existência em substituição ao sábado do sétimo dia, é desprezada e
passada por alto pelos seus modernos integrantes. Preferem apegar-se a
argumentos que destroem o princípio de um dia de descanso divinamente
determinado, mas não parecem capazes de oferecer nada melhor no lugar.
São bons na destruição de um conceito, mas nada eficientes na construção
de uma teologia que justifique tal atitude revisionista quanto ao
ensino oficial e tradicional de suas próprias denominações a respeito da
questão do dia de repouso. Só há uma explicação para isso—o
reconhecimento de falta de embasamento bíblico para a instituição
dominical.
Contudo, não é que finalmente aparece um advogado do
domingo apresentando uma nova e revolucionária tese nesse sentido? O
nome do “novidadeiro” é Harold Camping. Sua teologia particular de
defesa do domingo é realmente bem engenhosa, mas só que jamais qualquer
erudito cristão, mesmo dentre os mais entusiastas defensores do domingo
como substituto do sábado bíblico, expressou-se segundo as linhas de seu
raciocínio. Vejamos que teoria é essa, que por enquanto ainda não
chegou ao Brasil, quanto saibamos, analisada pelo nosso erudito
especialista em questões sábado/domingo, Dr. Samuele Bacchiocchi:
HAROLD CAMPING—DOMINGO: O DIA DE REPOUSO?Dr. Samuele Bacchiocchi
Em
anos recente várias tentativas enganosas têm sido feitas para
legitimizar o domingo como o dia de descanso bíblico. Por exemplo, em
sua Carta Pastoral ‘Dies Domini’-O Dia do Senhor, o Papa João Paulo II
promove a observância do domingo como um imperativo moral enraizado no
Quarto Mandamento. Uma análise detalhada desse importante documento se
encontra no capítulo 1 de The Sabbath Under Crossfire, intitulado “Papa
João Paulo II e o Sábado”. [Obs.: Também temos um artigo que
disponibilizamos a qualquer interessado onde há uma síntese desse
capítulo referido].
Calendários europeus perpetuam o engano do
domingo/sábado ordenando os dias da semana horizontalmente com a
segunda-feira como o primeiro dia e o domingo como o sétimo dia. Tais
calendários estão agora começando a aparecer nos EUA também. A intenção
enganosa é fazer as pessoas crerem que o domingo é o sétimo dia bíblico
que os cristãos devem observar.
A mais curiosa e irracional
tentativa de defender o domingo como o sábado neotestamentário é,
provavelmente, a de Harold Camping, Presidente e Fundador da emissora
Radio Family—um ministério internacional de rádio e TV com estações
poderosas em várias partes do mundo. Seu livreto Sunday: The Sabbath? e
suas palestras por rádio e TV influenciam incontáveis cristãos em muitas
partes do mundo.
Por muitos anos Camping tem ensinado que a
ressurreição de Cristo no domingo assinala o fim da observância judaica
do sábado e o início do domingo como um novo sábado cristão. O que é
inusitado a respeito da teoria de Camping é a forma como ele defende sua
posição, torcendo os relatos da ressurreição de Cristo como se acham em
Mateus 28:1, Marcos 16:1, 2 e João 20:1. Quanto eu saiba, nenhum
erudito observador do domingo apóia sua interpretação arbitrária dessas
passagens. Contudo, seus pontos de vista são amplamente aceitos por um
crescente número de cristãos.
Uma razão para a popularidade de
Camping é o seu apelo à inerrância da Bíblia. Ele escreve: “Em seus
autógrafos originais, ou manuscritos, a Bíblia é a infalível Palavra de
Deus. É completamente inerrante. Não contém erros de qualquer forma que
seja. Isso se dá porque os manuscritos originais foram ditados por Deus”
(p. 1).
A inerrância para Camping significa que Deus controla tais detalhes como o uso singular ou plural da palavra “sábado”.
“Se
Deus o tivesse desejado no plural [ou seja, a palavra sábado], Ele
teria escrito no plural. Como vimos anteriormente, Deus insiste neste
princípio em Gálatas 3:16 onde Deus fala de um verso na Bíblia onde a
palavra ‘semente’ aparece no singular. Ele acentua que se trata do termo
no singular, ‘semente’, não no plural ‘sementes’” (p. 3).
A
inerrância para Camping significa que Deus ditou se uma palavra devia
ser plural ou singular. Se isso fosse verdade então a linguagem da
Bíblia seria a do Espírito Santo que ditou cada palavra a seus
escritores. Tal noção é desmentida pela diferença em estilo, vocabulário
e construção de sentença entre os vários livros da Bíblia. A gramática
da Bíblia é humana, não divina. Isso é exemplificado pelo próprio
exemplo de Gálatas 3:16 empregado por Camping.
Em Gálatas 3:16
Paulo argumenta que as promessas de Deus à semente de Abraão referem-se a
Cristo, porque a palavra “semente” é singular, não plural. O fato é que
no grego a palavra para semente-sperma, é um termo coletivo empregado
com sentido tanto singular quanto plural. O próprio Paulo emprega a
mesma palavra sperma poucos versos depois numa forma plural quando fala
dos crentes como sendo “semente de Abraão e herdeiros conforme a
promessa” (Gál. 3:29). O fraco argumento paulino dificilmente dá apoio à
alegação de Camping de que “Deus fala de um verso na Bíblia onde o
termo singular ‘semente’ aparece no singular” (p. 3).
Deus não
pode ser responsabilizado pelo falho argumento gramatical paulino. Este
ponto será esclarecido brevemente em nosso estudo dos argumentos da
inerrância. Veremos que pessoas como Camping argumentam em prol da
inerrância para justificar suas crenças doutrinárias. Por fim, a
preocupação deles é justificar a validade de seus ensinos, antes que
provar que a Bíblia é absolutamente livre de erros.
Durante os
últimos 10 anos tenho recebido não menos do que 50 exemplares do livreto
de Camping, Sunday: The Sabbath? [Domingo: O Sábado?], bem como
centenas de mensagens de pessoas confusas por seus ensinos. No sábado
passado, 16 de agosto de 2003, um irmão adventista levantou-se com um
exemplar do livreto de Camping num encontro no Brooklyn, NY. Ele me
perguntou se eu havia dado resposta a seus argumentos. Eu lhe garanti
que faria isto neste boletim. A razão porque tenho ignorado Camping
durante os últimos 10 anos, é simplesmente porque sua interpretação dos
textos bíblicos é tão irracional que nem merece uma análise erudita.
Os Ensinos de Harold CampingEm
termos simples, Camping tenta provar, basicamente firmado em Mateus
28:1 e textos relacionados (Marcos 16:1, 2; João 20:1), que a
ressurreição de Cristo no domingo assinala o término do sábado do Velho
Testamento e a inauguração do domingo como novo sábado cristão. Ele
chega a essa conclusão torcendo o sentido desses textos.
Mateus
28:1 assim reza: “E, no fim do sábado, quando já despontava o primeiro
dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro”
Camping sustenta que essa tradução da Bíblia, bem como as demais versões
modernas, estão equivocadas. Por quê? Porque supostamente dão sentido
errado ao significado literal de “sábados”, que ocorre duas vezes no
texto grego. Em sua opinião o texto devia ser traduzido como segue: “‘No
final dos sábados [plural], ao despontar o primeiro dos sábados [não
‘semanas’]” (pp. 4-5).
Com base nessa tradução, Camping conclui
que “a frase ‘no fim do sábado’ podia ser expandida para dizer, ‘Agora
que a era dos sábados veterotestamentários chegou a um fim. . .’” (p.
8). Semelhantemente, ele interpreta a frase “quando já despontava o
primeiro dia da semana” como devendo significar: “Deus tem uma nova era
de sábados. É o domingo pela manhã; é o despontar de uma nova era de
sábados. . . . Não é somente um sábado que está se iniciando. Deus está
ensinando que há uma série toda de sábados a vir. Deus está dizendo, por
Sua própria definição, que esses novos sábados são cada e todo domingo”
(p. 9).
Segundo Camping, os cristãos têm falhado em perceber sua
interpretação do texto, porque os tradutores cometeram dois erros ao
traduzir a passagem. Primeiro, traduziram a primeira palavra “sábados”,
que é tanto plural quanto singular: “No fim do sábado”. Segundo Camping a
frase devia ser “no fim dos sábados [plural]”, isto é, ao final dos
sábados do Velho Testamento.
O segundo erro é que traduziram a
segunda ocorrência de “sábados” [plural] como singular “semana”. Segundo
Camping a frase devia dizer: “ao despontar do primeiro dos sábados—não
‘semana’“ (pp. 4, 5). Ele interpreta isto como querendo dizer a
inauguração do domingo como o novo sábado cristão. Vejamos agora quem
está errado, Camping ou os tradutores?
CINCO PRINCIPAIS DEFEITOS NOS ARGUMENTOS DE CAMPINGHá cinco principais falhas nos argumentos de Camping que destroem a validade de suas conclusões. Examinemo-las brevemente.
Primeiro,
Camping interpreta duas declarações temporais concernentes ao tempo da
ressurreição de Cristo, ou seja, “no fim do sábado” e “quando já
despontava o primeiro dia da semana” como pronunciamentos teológicos
sobre o término do sábado do VT e a inauguração do domingo como o novo
sábado cristão.
Tal interpretação arbitrária reflete a falta de
senso comum básico. Nenhum estudante sensato da Bíblia consideraria a
hipótese de transformar uma declaração temporal concernente à
Ressurreição de Cristo, num pronunciamento teológico a respeito do
término da observância do sábado e inauguração da observância do
domingo. É evidente que falta a Camping a capacidade de raciocinar
logicamente. Ele precisa aprender a respeitar a natureza da passagem.
Transformar uma declaração temporal num pronunciamento teológico
significa violar o sentido intencionado da passagem.
Em segundo
lugar, Camping ignora que no grego o plural “sábados—ta sabbata”, é
amiúde empregado com um sentido singular. Seu problema não é a sua
ignorância. Todos somos ignorantes em muitas áreas. Antes, é sua
indisposição em superar sua ignorância por ler alguns léxicos e
dicionários padrão que definem o emprego do termo “sábado”. Por exemplo,
se Camping tivesse tomado tempo para ler o estudo erudito de 35 páginas
do uso de “Sabbaton-Sábado”, como se acha no volume 7 do The
Theological Dictionary of the New Testament, (que é o mais respeitado
estudo de palavras no NT), ele teria aprendido que “o plural ‘ta
sabbata’ [sábados] pode ter três sentidos: 1. vários sábados . . . , 2.
um sábado (a despeito do plural) . . . 3. a semana completa, no uso do
hebraico” (p. 7). Cada um desses significados é amplamente documentado
no artigo. Para efeito de brevidade eu não vou sobrecarregar o leitor
com a documentação.
Tivesse Camping tomado tempo para aprender o
simples fato de que a forma plural de “sábados” é freqüentemente
empregada no grego com o sentido singular de um único sábado, ele não
teria cometido o equívoco de interpretar o plural “sábados” como um
pronunciamento teológico quanto ao término do sábado do VT e inauguração
dos sábados no NT. Teria reconhecido que o texto fala somente a
respeito do tempo da Ressurreição, ou seja, ao fim do sábado e despontar
do primeiro dia da semana—e não a respeito da mudança do sábado pelo
domingo. O problema não está com traduções defeituosas, mas com a
ignorância de Camping de como o termo “sábados” era na época empregado.
Em
terceiro lugar, Camping ignora um fato básico de que no grego, como no
hebraico, o termo plural “sábados-ta sabbata” era comumente empregado
para designar a semana como um todo. A razão é que os dias da semana
eram numerados com referência ao sábado. Quando os romanos adotaram dos
judeus os sete dias da semana pouco antes da era cristã, eles deram a
cada dia um nome de um deus planetário. Foi assim que tivemos nossa
semana planetária [N.T.: em inglês e outros idiomas]. Mas os judeus e os
cristãos primitivos davam nomes aos dias da semana enumerando os dias
com referência ao sábado. Assim, Mateus 28:1 corretamente refere-se ao
domingo como “o primeiro dos sábados—mia sabbaton”. Essa era a
designação comum do domingo.
É lamentável que Camping nunca tomou
tempo para aprender esse bem conhecido emprego do termo “sábado” para
designar a semana como um todo, bem como os dias reais da semana. Se ele
tivesse aprendido este simples fato, não se teria posto a acusar os
tradutores de alterarem arbitrariamente a frase “o primeiro dos sábados”
como “o primeiro dia da semana” (p. 5). Os tradutores sabiam o que
estavam fazendo. É Camping que não sabe sobre o que está escrevendo.
Um
bom exemplo da ignorância de Camping é esta declaração: “Não
encontramos justificativa bíblica para traduzir a palavra grega ‘sábado’
como ‘semana’“ (p. 5).O fato é que há numerosos exemplos bíblicos do
emprego do termo “sábado-sabbaton” para designar a semana. O Young’s
Analytical Concordance of the Bible alista nove casos (p. 1041). Um
desses é Lucas 18:12, onde o fariseu se vangloria, dizendo: “Jejuo duas
vezes por semana (em grego sabbaton)”.
Ao rejeitar o emprego comum do
termo “sábado” para designar a “semana”, Camping alega que “Lucas 18:12
devia ser traduzido por, ‘Jejuo duas vezes no sábado” (p. 6).
Essa
tradução arbitrária é desacreditada não só pelo emprego comum do termo
sábado para designar a semana, mas também pelo fato de que nenhum jejum
era permitido pelos fariseus no sábado. O sábado era um dia de regozijo,
e nenhum jejum ou lamentação ocorriam nesse dia. Finalmente, o jejum
aos sábados foi introduzido pelo Bispo de Roma como um método para
desviar os cristãos da guarda do sábado e induzi-los à observância do
domingo. Mas este é um acontecimento posterior, totalmente sem relação à
prática dos fariseus em jejuar duas vezes por semana. Segundo o Didaquê
8:1—um antigo documento cristão da última pare do primeiro século—os
fariseus jejuavam às segundas- e quintas-feiras.
Um quarto fato
ignorado por Camping é a continuidade da observância do sábado,
especialmente entre judeus cristãos. Seu pressuposto de que o evento da
ressurreição de Cristo, como relatado nos Evangelhos, assinala o término
do sábado veterotestamentário e a inauguração do domingo como o novo
sábado cristão é negado pela continuidade da observância do sábado,
especialmente entre os descendentes diretos dos cristãos de Jerusalém
(para documentação ver From Sabbath to Sunday, pp. 156, 157). Como podia
Mateus, escrevendo a leitores judeus-cristãos, dizer que a ressurreição
de Cristo terminou o sábado do VT e inaugurou o domingo como o sábado
do NT, quando esses eram ainda “zelosos da lei” (Atos 21:20) em geral e
do sábado em particular?
Um quinto e último ponto ignorado por
Camping, é a falta de qualquer significado litúrgico ligado ao dia da
ressurreição de Cristo no NT. Se Cristo desejasse tornar o Dia de Sua
ressurreição um dia memorial a ser celebrado no domingo semanal e no
domingo de Páscoa anual, não teria Ele feito algo a respeito? Não teria
Ele convidado as mulheres primeiro e os discípulos depois a celebrarem a
Ressurreição?
Observem que as instituições bíblicas como o
sábado, o batismo, a Ceia do Senhor, todos traçam sua origem a um ato
divino que os estabeleceu. Mas nem Cristo nem os apóstolos fizeram
qualquer tentativa de estabelecer uma celebração dominical da
Ressurreição. A razão é simples. A Ressurreição era vista como uma
realidade existencial a ser celebrada por viver vitoriosamente pelo
poder do Salvador ressurreto, não uma prática litúrgica a ser observada
no domingo semanal ou domingo de Páscoa.
Paulo ora para que
pudesse conhecer “o poder da ressurreição” (Fil. 3:10), mas ele nunca
menciona o dia da Ressureição. De fato, o domingo nunca é chamado “dia
da Ressurreição” no Novo Testamento, nem mesmo na literatura patrística
dos primeiros tempos. O primeiro uso da frase aparece nos escritos de
Eusébio de Cesaréia (cerca de 325 AD).